Em que Consiste a Felicidade Humana?

por Huberto Hohden

da obra: O Caminho da Felicidade

O problema da felicidade é o problema central e máximo da humanidade.

Desde tempos antiquíssimos existem duas ideologias filosófico-espirituais sobre o segredo da felicidade humana – “essa felicidade que supomos… toda arreada de dourados pomos”, como diz Vicente de Carvalho, mas que “está sempre apenas onde a pomos, e nunca a pomos onde nós estamos”.

Existe essa felicidade, “árvore milagrosa, que sonhamos”? Em que consiste? Como alcançá-la? Como conservá-la?

A felicidade existe, sim, não fora de nós, onde em geral a procuramos, mas dentro de nós, onde raras vezes a encontramos.

Em que consiste a felicidade?

A célebre escola filosófica de Epicuro (hedonismo) faz consistir a felicidade na posse e plenitude de bens externos; tanto mais feliz é o homem, segundo os epicureus, quanto mais possui, tem, goza.

A escola de Diógenes (cinismo) ensina que a felicidade consiste na vacuidade ou renúncia de todos os bens externos; quanto menos o homem possui ou deseja possuir, tanto mais feliz é ele, porquanto a infelicidade consiste a) ou no medo de perder o que se possui, b) ou no desejo de possuir o que não se pode possuir; quem renuncia espontaneamente à posse de bens externos e ao próprio desejo de os possuir, ensinam os discípulos de Diógenes, é perfeitamente feliz.

Entretanto, embora haja elementos de verdade nessas filosofias, tanto Epicuro como Diógenes, e todos os seus seguidores, falharam no ponto central da questão. A felicidade não consiste nem em possuir nem em não possuir bens externos, mas sim na atitude interna que o homem crea (*) e mantém em face da posse ou da falta desses bens. O que decide não é, em primeiro lugar, aquilo que o homem possui ou não possui, mas sim o modo como ele sabe possuir ou não possuir.

Quer dizer, o que é decisivo não é a maior ou menor quantidade objetiva das coisas possuídas, mas a qualidade subjetiva do possuidor. Esta qualidade, porém, é conquista do próprio homem, e não algum presente de circunstâncias fortuitas. A felicidade do homem só pode depender de algo que dependa dele.

É possível que a posse, ou mesmo o desejo da posse, de uns poucos cruzeiros escravize o homem – e é possível que a posse real de milhões e bilhões de cruzeiros não escravize o seu possuidor.

A questão central não é de ser possuidor ou não-possuidor – mas, sim, de ser possuído ou não- possuído de bens externos. Não há mal em possuir – todo mal está em ser possuído. Ser livre é ser feliz – ser escravo é ser infeliz.

A verdadeira felicidade, portanto, não pode consistir em algo que nos aconteça, mas em algo que seja creado (*) por nós. As quantidades externas nos “acontecem” – a qualidade interna é creada(*) por nós. Tudo depende, pois, em última análise, da nossa atitude interna, do modo como possuímos ou não possuímos; ou, no dizer do Nazareno, depende da “pobreza pelo espírito” e da “pureza de coração”, quer dizer, na liberdade e no desapego interior do homem.

Pode o possuidor ser livre daquilo que possui – e pode o não-possuidor ser escravo daquilo que não possui.

Mestre Zenon, fundador da escola estóica, já naquele tempo, vislumbrou essa grande verdade e ensinava a seus discípulos que a felicidade consistia numa permanente serenidade interior, tanto em face do prazer como em face do desprazer, serenidade baseada na perfeita harmonia com a “lei cósmica”; que o homem perfeito e feliz devia manter uma atitude de absoluta serenidade, espécie de equilíbrio e atitude racional, em face do agradável e do desagradável da vida.

O estoicismo é, certamente, na antiguidade, o tipo de filosofia da vida que mais se aproximou da solução do problema central da humanidade: compreendeu que a felicidade não consiste, primariamente, em ter ou não-ter, mas sim em ser; não em plenitudes ou vacuidades externas, mas numa vitalidade interna; não em circunstâncias objetivas, mas substância subjetiva.

O estoicismo antigo, eminentemente racional, falhou apenas num ponto: em querer banir da vida humana os elementos afetivos e emotivos, que ele considera incompatíveis com a serena racionalidade, indispensável a uma vida perenemente feliz. Entretanto, o fato é que a zona afetiva faz parte do homem completo; excluí-la da vida humana é edificar a felicidade sobre um bloco de gelo.

Uma perfeita e verdadeira filosofia da felicidade humana deve, necessariamente, ter caráter positivo e construtor, porque aqueles elementos fazem parte integrante da natureza humana, e sem essa integridade não pode haver felicidade real e permanente. Neste ponto, o Evangelho do Cristo representa a solução definitiva.

Também a Bhagavad Gita e o Tao Te King, essas pérolas da sabedoria oriental, fazem consistir a felicidade do homem na total permeação da sua natureza pela consciência espiritual, realizando assim o homem cósmico, o homem univérsico, o homem feliz.

Chegamos, assim, à conclusão final de que a felicidade 1) não consiste, precipuamente, em possuir ou não possuir determinadas quantidades de bens externos, embora seja necessária a posse de certo conforto material para podermos prosseguir em nossa evolução superior; 2) que a felicidade não pode ser baseada apenas em uma parte da natureza humana, mas tem de ser construída sobre a natureza humana total; 3) que deve vigorar perfeita ordem e harmonia entre todas as partes componentes da natureza humana; não podemos afirmar um elemento humano em detrimento de outro; não deve haver eliminação nem substituição, mas perfeita integração.

(*) substituição da tradicional palavra latina crear pelo neologismo moderno criar é aceitável em nível de cultura primária, porque favorece a alfabetização e dispensa esforço mental – mas não é aceitável em nível de cultura superior, porque deturpa o pensamento. Crear é a manifestação da Essência em forma de existência – criar é a transição de uma existência para outra existência. O Poder Infinito é o creador do Universo – um fazendeiro é criador de gado. Há entre os homens gênios creadores, embora não sejam talvez criadores. A conhecida lei de Lavoisier diz que “na natureza nada se crea e nada se aniquila, tudo se transforma”, se grafarmos “nada se crea”, esta lei está certa mas se escrevermos “nada se cria”, ela resulta totalmente falsa. Por isto, preferimos a verdade e clareza do pensamento a quaisquer convenções acadêmicas.

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