O lado positivo do estresse agudo

O lado positivo do estresse agudo

por Guilherme Armando Contrucci

A palavra estresse, como relata em seu livro Fique de Bem com o seu Cérebro, da Drª Suzana Herculano-Houzel, nos faz lembrar imediatamente a falta de tempo, de dinheiro, de companhia, de segurança. Estresse, contudo é muito mais do que isso. Fisicamente, o estresse é definido como toda força que, aplicada a um objeto, provoca nele uma alteração. Em nossa vida, portanto, ele diz respeito a todo acontecimento que provoca uma mudança rápida do corpo e do cérebro, e essa modificação, longe de ser indesejável, é o que nos permite continuar vivos.

No caso, o texto aqui trata das características do estresse agudo ou transtorno de estresse agudo (TEA), definido por John W. Barnhill (portal MSD) como sendo uma reação disfuncional intensa e desagradável que tem início logo após um evento extremamente traumático e dura menos de um mês. Se os sintomas persistirem mais que um mês, a pessoa será diagnosticada com transtorno de estresse pós-traumático.

Independente do tipo de estresse aqui abordado, ainda conforme estudos da Drª Suzana Herculano-Houzel, a resposta imediata, aguda, ao estresse consiste em uma série de alterações inconscientes, involuntárias, no funcionamento do corpo que o preparam para agir ou reagir em caso de necessidade. Estudos mostram que basicamente três situações podem acontecer diante de cenários causadores de estresse: o evento em si mesmo, a sua percepção e a reação do corpo à percepção do evento. Esses estudos são muito bem apresentados por Ian McDermott e Joseph O’Connor no livro PNL e Saúde – Recursos da programação neurolinguística para uma vida saudável.

E ainda bem que elas são inconscientes e involuntárias: se fosse sempre necessário pensar no que fazer e só então preparar o corpo para agir, a nossa espécie, juntamente ao reino animal, sujeito a ataques de predadores, poderia não estar mais no planeta.

Muitos livros fazem parecer que as causas do estresse são necessariamente grandes riscos à vida, como o ataque de um animal feroz ou de um assaltante ou de outro predador qualquer. Da mesma maneira a resposta ao estresse apontada nesses livros costuma ser lutar ou fugir, bater ou correr. Lembrando que também existe o componente “congelar” no estudo da psicologia humana.

Essas criaturas assustadoras são causas de estresse. Mas há estresses mais corriqueiros e prováveis em nossa vida. Levantar-se da cama pela manhã, por exemplo, é um estresse ao qual só conseguimos responder se o corpo se preparar para isso com antecedência, realizando uma série de alterações hormonais e metabólicas. Ficar de pé, aliás, exige providências que aumentam a pressão arterial para que o cérebro continue recebendo sangue suficiente, pois a gravidade tende a jogar o sangue para os pés. E é assim com muitas outras coisas. Preparar um trabalho, responder a perguntas, fazer contas de cabeça, subir escadas, correr para evitar que o filho leva um choque e até ficar aflito com o destino do mocinho do filme são apenas alguns dos pequenos tipos de estresse a que somos submetidos várias vezes ao dia.

Sobrevivemos a todos eles graças ao cérebro, que é capaz de orquestrar respostas rápidas por meio da amígdala (pequena estrutura de forma amendoada encontrada no cérebro, e não o órgão na garganta como muitos podem supor) e do hipotálamo, duas estruturas que provocam as mudanças necessárias no corpo ao controlarem o sistema nervoso autônomo (simpático e parassimpático), a liberação de hormônios por glândulas variadas e influenciarem o nosso comportamento. Se não tivéssemos a capacidade de reagir ao estresse, a vida só seria possível em condições absolutamente estáveis e reguladas. Quando o sistema nervoso simpático é eliminado por cirurgia em animais de laboratório, e com ele toda a resposta aguda ao estresse, qualquer susto, esforço ou até mudança de temperatura ambiente pode ser fatal.

Se estivermos realmente em perigo, a reação é muito útil. Nós ficamos alertas e ativos e podemos ultrapassar nossos limites normais. Mas, para algumas pessoas, esse estado de excitação torna-se normal. Elas ficam viciadas em estresse, precisando de um nível cada vez maior para manter a mesma excitação. O estresse age como uma droga e, comparada ele, a vida normal é monótono. Mas o estresse aumenta a pressão sanguínea, acelera a frequência cardíaca, perturba a digestão e suprime o sistema imunológico. Ele também prejudica o raciocínio porque o sangue está fluindo em direção aos músculos e afastando-se dos centros racionais do cérebro. O estresse nitidamente crônico não é bom para você. É como dirigir um carro pisando fundo no acelerador, sejam quais forem as condições do tráfico, conforme citam McDermott e O’Connor.

Entretanto, um pouco de carga de estresse agudo é bom para o cérebro pois deixa o corpo em alerta e o prepara para os desafios que imagina estar passando. Adrenalina e noradrenalida são disparados ativando o corpo e as capacidades de processamento do córtex são aguçadas instantaneamente. As pupilas dos olhos dilatam, permitindo a entrada maior de luminosidade e os pêlos do corpo ficam eriçados, tornado-nos mais sensíveis ao toque e à vibração. O sangue flui para os grandes músculos, afastando-se do sistema digestivo. Quer a ameaça seja real ou não, segundo os consultores em PNL, experimentamos o mesmo choque bioquímico. Se pensarmos que ela é real, então, para o nosso corpo ela é.

Essas alterações no corpo até chegam a ser agradáveis, como citei acima sobre aqueles que se viciam com essas cargas de hormonios, e após a passagem ou eliminação do fator causador de estresse, seja ele positivo ou assustador, aparece uma sensação de vitória e empoderamento, como se tivéssemos obtido uma recompensa pelo esforço e pelas alterações bioquímicas e emocionais.

Nos tratamentos em que submetemos nossos pacientes e interagentes, deixamos como ensinamento que saber lidar com essas situações estressantes, aceitar o estresse e modificá-lo de maneira a se tornar positivo ou aliado, é um grande passo para o tratamento e até a extinção dos fatores negativos por ele causados ao nosso corpo, mente e emoções.

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