O sofrimento como fator de iniciação

por: Huberto Rohden

É experiência geral que entre o entender intelectual do homem profano e o compreender espiritual do iniciado medeia um grande sofrimento. E esse sofrimento serve como que de catalisador, nessa estranha alquimia.

Se o compreender espiritual fosse apenas a soma total dos atos sucessivos do entender intelectual, não haveria necessidade desse sangrento catalisador; mas não é isto que acontece. Ninguém chega a Deus só pela força do pensamento. O pensamento é, até certo ponto, necessário para que a compreensão espiritual possa desabrochar na alma; mas, em hipótese alguma, deve o pensamento ser considerado como causa dessa compreensão; é apenas condição preliminar, embora necessária, da mesma.

E vai nisto um elemento profundamente trágico: precisamente no momento em que o homem tem sobre Deus os mais grandiosos e belos pensamentos é que ele deve superar todo esse deslumbrante mundo da filosofia e poesia, e até o fascinante mundo da ética e filantropia, que não o podem conduzir até ao trono de Deus. Todos esses mundos, por mais verdadeiro e bons, só conduzem o homem até ao limiar do santuário; nenhum deles consegue transpor a misteriosa fronteira que há entre o entender e sentir, por um lado, e o compreender e amar, por outro. É indispensável que, depois de todo esse gratíssimo entender, querer e sentir, do plano horizontal, haja uma crucifixão, que uma súbita e inesperada vertical cruze e corte cruelmente aquela horizontal. Sem esse cruzamento, ou crucifixão, não há redenção. “Sem efusão
de sangue não há redenção.” Sem essa sangrenta sexta-feira, nas alturas do Gólgota, não há domingo de ressurreição no horto das oliveiras.

O reino de Deus e sua glória nascem entre os braços sangrentos da cruz. E isto é, para o nosso velho ego, o golpe de misericórdia. Não podemos dizer que fomos nós, pessoalmente, que arquitetamos dentro de nós o reino de Deus, mas que esse reino nos veio como uma graça, um dom gratuito dos céus, imerecidamente – isto é tão humilhante e tão mortífero para o nosso complacente e autossuficiente ego que toda a sua profana bagagem fica abandonada para aquém da fronteira da verdadeira iniciação espiritual.

É necessário que o homem satisfeito consigo mesmo caia num abismo de insatisfação – ia quase dizendo, de desespero de si mesmo. É esta a mais trágica das “tragicidades” da nossa vida terrestre: temos de trabalhar e lutar, temos de pensar e realizar, temos de estudar e crer – e, depois de tudo isto, devemos saber que nada disto nos pode salvar. E, por fim, de quilha quebrada, de leme partido e mastros desarvorados, temos de enfrentar o grande naufrágio da nossa vida. Temos de submergir no oceano de um completo aniquilamento do nosso velho ego e de tudo quanto ele produziu, possui e estima – e humildemente temos que esperar que as ondas bravias da misericórdia de Deus nos lancem a alguma ilha longínqua e ignota, desnudos de tudo que julgávamos possuir, a fim de podermos ressuscitar e começar vida nova e verdadeira.

Sem esse total naufrágio do homem velho não há redenção para o homem novo. “Não há heróis no campo de ação – escreve Albert Schweitzer – há tão somente heróis no plano da renúncia e do sofrimento.”

Não é possível que a “nova creatura em Cristo” nasça sem que o “homem velho” morra. Não é possível que o grão de trigo produza muito fruto sem que ele primeiro caia em terra e morra – morra para a semente, a fim de viver para a planta. Aqui é que se dividem os caminhos da humanidade. Aqui é que está a grande encruzilhada entre Lúcifer e Lógos, entre Satan e Cristo, entre os que pretendem fabricar por iniciativa própria o reino dos céus e os que, em humilde silêncio, o recebem nas mãos de Deus. As torres de Babel não atingem o céu.

O homem luciférico move céus e terra para evitar essa crucifixão, essa morte do velho ego; quer, sim, entrar no reino dos céus; mas, de forma alguma, pela porta estreita do sofrimento. Tudo – menos o sofrimento! Muitos dos homens profanos que se têm em conta de iniciados e esotéricos – que são os mais profanos dos profanos – professam esse horror ao sofrimento; e por isto inventam os mais engenhosos sistemas e elaboram mirabolantes técnicas de iniciação indolor, espécie de anestesia ou hipnose, para terem um parto espiritual sem dor. Aquele velho Cristianismo do Sermão da Montanha não é do sabor do espiritualista moderno; ele está convencido de que há outra entrada no reino dos céus que não obrigue o homem a passar pelo Getsêmane e pelo Gólgota. Pois, não fez a humanidade tão estupendas invenções e grandes progressos, nesses dois milênios? Não andamos mais em primitivas canoas e carros de boi – mas voamos em aviões a jato; não nos comunicamos mais por meio de vagarosas diligências e estafetas postais – mas estabelecemos permanente e rapidíssimo intercâmbio por meio de telégrafo e telefone, rádio e televisão. E por que continuaríamos a rastejar dolorosamente nos caminhos obsoletos do Sermão da Montanha? Repetiria Jesus essas coisas se vivesse em pleno século vinte, à luz da Era Atômica?

Entretanto, a natureza humana continua a ser a mesma como nos tempos do Nazareno, e enquanto o homem for egoísta, e cada vez mais egoísta, não há nenhuma possibilidade de redenção que não passe pelas trevas do sofrimento. Não há ressurreição para o “homem novo” enquanto o “homem velho” não for crucificado, morto e sepultado…

Outros, em vez de práticas iniciáticas e liturgias esotéricas, se lançam ao mar imenso das atividades ético-sociais e filantrópicas, fundando sociedades, igrejas, asilos, colégios, criando estupendas organizações para aliviar os sofrimentos da humanidade, e com essas exuberâncias externas se julgam remidos internamente. Podem essas atividades, quando bem intencionadas, preparar a redenção do homem, não o negamos; mas, em hipótese alguma, a podem substituir nem produzir. Pode um homem fazer um bem imenso a seus semelhantes sem ser bom ele mesmo.

Nem a liturgia iniciática nem as atividades filantrópicas podem causar redenção nem podem dispensar o fator intimamente ligado à redenção, que é o sofrimento voluntariamente aceito. Tudo aquilo que o homem faz, como personalidade-ego, é incapaz de produzir a redenção, porque a redenção não pertence ao número dos objetos que o homem faz ou tem, mas é aquilo que o homem é; é a completa transformação e transfiguração do seu íntimo sujeito. A redenção é algo que o homem recebe, depois de se ter tornado receptivo. O sofrimento voluntário, porém, é o último retoque nesse processo de receptividade. É o abrir de uma porta fechada. É a desobstrução de um canal obstruído.

Por quê? Porque o sofrimento cria um ambiente de desconfiança no ego. Até essa data, o ego afirmava orgulhosamente que ele podia tornar o homem definitivamente feliz. O sofrimento destruiu essa falsa segurança, revelou a fraqueza e insegurança do ego. E o homem ergue as mãos às alturas, estende as suas antenas, em busca de algo mais seguro. É o anseio do elemento divino, do reino de Deus que está dentro do homem em estado latente. É o primeiro brado da alma para despertar dentro de si o “Deus escondido”. É o romper da casca do “grão de trigo” e o início da planta que do seu interior vai brotar.

Essas atividades horizontais do ego “personal” têm por finalidade principal criar no homem um ambiente inflado de confiança e orgulho mental em si mesmo. E, quando esse orgulho mental tiver atingido o seu clímax de glórias e grandezas, sobrevém ao homem o grande naufrágio, o terremoto catastrófico de um total desespero de si mesmo, causado pelo sofrimento arrasador. E quando esse naufrágio e esse terremoto tiverem abalado os últimos alicerces do ego “personal”, não deixando pedra sobre pedra – então se sente o homem suficientemente aniquilado e esvaziado do seu pequeno eu para poder ser enchido do grande Deus.

A teo-plenificação supõe necessariamente uma ego-evacuação.

Esse total ego-esvaziamento, porém, não se realiza senão por meio de um grande sofrimento. O momento trágico está no fato de que todas as atividades do ego “personal” são necessárias – mas nenhuma delas, nem a soma total das mesmas, é
suficiente para a redenção do homem. Se não fossem necessárias, o homem se deixaria redimir, passivamente, pela graça de Deus. Se fossem suficientes essas atividades do ego, o homem se redimiria, ativamente, por seu esforço próprio, pessoal. O trágico está nesse estranho paradoxo: necessário – e não suficiente.

Por isto, impedir esse sofrimento ou “descompreendê-lo”, é o pior serviço que o homem pode prestar a si mesmo, no caminho da sua evolução ascensional. Se a redenção fosse apenas um processo de continuação de algo já existente e conhecido no homem, bastava que ele intensificasse esse processo – a verdade, porém, é que a redenção é um novo início, algo inédito, virgem, original, um fiat creador de novos mundos – e o velho ego “personal” do homem é muito pequeno para produzir coisa tão grande.

O sofrimento é o ocaso de pequenez e a alvorada da grandeza.

Querem os escolásticos saber se o Cristo poderia ter remido o mundo sem o sofrimento, e não chegam a um acordo – a nós não nos interessa saber tal coisa: sabemos que, historicamente, a redenção foi feita através do sofrimento e que o Cristo “devia sofrer tudo isto para assim entrar em sua glória.” A inteligência analítica nunca explicará o último por que desse fato, mas a razão intuitiva adivinha uma grande verdade nesse acontecimento. Todo homem que passou vitoriosamente por um grande sofrimento compreende e aprova integralmente a epopéia do sofrimento de Jesus, porque sabe por experiência íntima que há no sofrimento algo de purificante e libertador, algo de espiritual e divino.

O sofrimento é o pior inimigo do ego, que vê nele uma diminuição da vida, por que nada enxerga para além das fronteiras da personalidade físico-mental-emocional; e, dentro deste âmbito, o ego tem razão; o mal está nessa mesma miopia inseparável do ego. O Eu espiritual em nós tem visão ampla, alcança grandes distâncias, abrange o todo da nossa existência, no tempo e no espaço, e também para além do tempo e do espaço; e por isto pode incorporar o sofrimento como um fator positivo e benéfico dentro do quadro geral da existência humana. E, com isto, adquire o sofrimento a necessária transparência e plasticidade para se integrar no plano total do homem.

O ego humano é o Jesus em nós, mortal, que tem de ser crucificado – para que o Cristo imortal, o Eu divino, possa viver mais abundantemente e entrar em sua glória.

Por isto, qualquer doutrina ou atividade que poupe ao homem essa crucificação é um fator anticristão que não redime o homem. Há inúmeras doutrinas espiritualistas, místicas e esotéricas que, sob a bandeira do Cristo, impedem o homem de chegar ao Cristo, porque não querem saber do trecho que vai do Getsêmane ao Gólgota.

Quando dizemos “sofrimento” ou “crucifixão” não entendemos com esta palavra alguma mortificação arbitrária, como a que certos penitentes, antigos e modernos, infligem a seu corpo; nem entendemos o simples fato material de alguém suportar o inevitável; mas entendemos a mais árdua de todas as crucifixões, que consiste na completa e irrevogável identificação do homem com os dois grandes mandamentos da vida humana, o mandamento vertical da mística divina e o mandamento horizontal da ética humana. Essas duas linhas, do ser do agir, quando se encontram em ângulo reto, formam uma cruz, e no simbolizado desse símbolo é que está a redenção.

Amar a Deus de todo o coração, com toda a alma, com toda a mente e com todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo – é esta a única crucifixão redentora, e é, no princípio, o maior dos sofrimentos, embora se converta, mais tarde, numa entrada na glória. A cruz do Calvário, ainda com o pé preso na terra, se transformará na cruz do Tabor, com as quatro pontas iguais e livremente suspensas no espaço – a cruz da glória e da vida eterna, conhecida em todas as grandes religiões e filosofias do mundo.

Para fazermos o teste e a prova de fogo do amor a Deus, basta que verifiquemos se, de fato, amamos nosso semelhante como a nós mesmos. Enquanto não possuirmos este amor humano, não nos iludamos sobre a posse do amor divino. A ética é a única prova da mística.

Quem, de fato, identificou a sua vida individual com a Vida Universal, não pode deixar de sintonizar a sua vida pessoal com a de todas as outras creaturas de Deus.

Quem ama a Deus tem de, forçosamente, amar aquilo que Deus ama – e não existe creatura alguma no Universo que não seja alvo do amor de Deus.

Quem descobriu o Deus do mundo em si mesmo descobre-o também em todos os outros seres do Universo. É simples questão de vidência cósmica. A sintonia com a vida do Creador produz necessariamente a sintonia com a vida de todas as creaturas de Deus.

Nota de Guilherme Contrucci

Precursor do espiritualismo universalista, escreveu mais de 100 obras (ao final da vida, condensadas em 65 livros), onde franqueou leitura ecumênica de temáticas espirituais e abordagem espiritualista de questões pertinentes a pedagogiaciência e filosofia, enfatizando o autoconhecimento, a autoeducação e a autorrealização. Propositor da filosofia univérsica, por meio da qual defendia a harmonia cósmica e a cosmocracia: autogoverno pelas leis éticas universais, conexão do ser humano com a consciência coletiva do universo e florescimento da essência divina do indivíduo, reconhecendo que deve assumir as consequências dos atos e buscar a reforma íntima, sem atribuir à autoridade eclesiástica o poder de eliminar os débitos morais do fiel. Brasileiro de Tubarão (SC), Rohden foi confundido com um ateu visto suas colocações críticas ao cristianismo ocidental, em que exalta a diferença entre Jesus e o Cristo.

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