Que é o Cosmos?

por Huberto Rohden

Nestes últimos decênios, a palavra “cosmos” se tornou termo popular. Os nossos
cosmonautas perlustram os espaços cósmicos.

Entretanto, nas páginas deste livro sobre “cosmosofia” e “cosmoterapia”, a palavra cosmos não coincide integralmente com esse sentido científico-popular. Não nos referimos, em primeiro lugar, ao espaço físico, sideral, ao corpo visível do cosmos, mas antes à sua alma invisível.

Kósmos é a palavra grega correspondente ao termo latino mundus. Kósmos é o radical de um vocábulo que quer dizer “belo” (cf. cosmético). Mundus quer dizer “puro” (cujo oposto é immundus, impuro).

Entretanto, o termo latino que com maior precisão designa o caráter do kósmos
ou do mundus é a maravilhosa palavra Universo, composta de uno e (di) verso:
ou seja, unidade na diversidade, que é harmonia.

Se o mundo fosse apenas unidade (sem diversidade), seria monotonia. Se o mundo fosse apenas diversidade (sem unidade), seria caos. Mas, como o mundo é unidade na diversidade, ou diversidade na unidade, ele é a mais grandiosa expressão da harmonia.

O cosmos é, portanto:
– beleza,
– pureza,
– harmonia.


O elemento uno indica a Essência, una, única, infinita do cosmos, aquilo que as filosofias e religiões entendem, ou deveriam entender, por Divindade, Brahma,
Tao, o Absoluto, o Infinito, o Transcendente, a Causa-Prima, etc.

O elemento verso significa as Existências múltiplas do cosmos, os finitos, as criaturas, os efeitos individuais produzidos pela Causa Universal. Versus, é, aliás, o particípio passado do verbo latino vértere (verter, derramar), indicando aquilo que foi “vertido”, derramado pelo centro da Essência rumo às periferias das Existências.

A palavra “existência” – derivada de ex (fora) e sistere (pôr) – tem o mesmo sentido: a existência é aquilo que foi posto para fora, isto é, Existência manifestada pela Essência. A Realidade revelada em Facticidades. A Realidade Infinita “é”. As Facticidades Finitas apenas “existem”.

O Universo é, pois, um composto de “Ser” e de “Existir”, de Realidades e Facticidades, de Causa e Efeitos, de Essência e Existências, de Uno e Versos, de Infinito e Finitos.

Quando, nas páginas deste livro, nos referimos ao cosmos como poder curador – como cosmoterapia – entendemos por cosmos a Essência do Universo, que produz os “Versos” das Existências.

Aliás, a Essência una do cosmos, sendo perfeita vida e saúde, não poderia jamais ser objeto de terapia. Somente na zona das Existências múltiplas é que pode haver necessidade de cura ou terapia.

O Uno do Universo também se pode chamar a Divindade, cuja manifestação é Verso, é Deus, ou mesmo os deuses. Na linguagem comum, usamos frequentemente a palavra “Deus” em vez de “Divindade”, porque a Divindade Transcendente não é objeto do nosso conhecimento humano; somente como Deus Imanente pode a Divindade Transcendente ser cognoscível.


Que se deve, pois, na realidade, entender por Deus ou Divindade? Deus (no sentido de Divindade) é a Realidade única e invisível presente em todas as Facticidades várias e visíveis:

– Deus é a Luz cósmica que gera todas as energias e matérias.
– Deus é o único Poder do Universo que tudo crea e sustenta.
– Deus é a Harmonia que rege todos os seres.
– Deus é a Vida que anima todos os seres vivos.
– Deus é a Inteligência que orienta os átomos e os astros.
– Deus é a Benevolência que ama todas as creaturas do cosmos.

Ora, sendo que o Universo, em sua Essência una, é tudo isto – Realidade, Luz, Poder, Harmonia, Vida, Inteligência, Benevolência, segue-se que o Universo também se manifeste, em suas Existências várias, como Realidade, Poder, Harmonia, Vida, Inteligência, Benevolência, porque tal o Efeito qual a Causa.

A concepção teológica dualista de que Deus seja alguma entidade justaposta ao Universo, algo fora do cosmos, algum indivíduo, alguma pessoa, é certamente a mais primitiva e infantil de todas as ideologias da humanidade.

A Essência do cosmos é idêntica à Divindade, embora a sua Existência seja não-idêntica. O cosmos existencial pode dizer “Eu e a Divindade somos um, mas a
Divindade é maior do que eu.

A Essência Infinita está em todas as Existências Finitas, embora não haja total identidade entre Essência e Existências, porque aquela é sempre maior do que estas, mesmo maior do que a soma total das Existências, porquanto a Essência é Realidade qualitativa, ao passo que as Existências, por maiores e mais numerosas, nunca deixam de ser meras Facticidades quantitativas.

O erro das teologias dualistas ocidentais está em estabelecerem separação entre o Uno da Essência Infinita e o Verso das Existências Finitas. O erro de certas filosofias panteístas orientais está em admitirem total identidade entre Essência e a soma total das Existências, identidade sem alteridade.

– O dualismo admite transcendência sem imanência.
– O panteísmo professa imanência sem transcendência.
– O monismo cósmico, porém, que admitimos, reconhece imanência com transcendência, identidade com alteridade.

Ora, uma vez que é metafisicamente certo que a Essência Una do Universo (Divindade) está presente em todas as Existências Várias do Cosmos (creaturas), segue-se, com matemática precisão e evidência, que a vida e saúde da alma do Universo está presente em todos os corpos do mesmo. E, enquanto nada impeça a atuação dessa presença, ela se manifesta infalivelmente.

Pergunta-se se pode haver algo capaz de impedir a manifestação dessa alma do Universo através dos seus corpos; pergunta-se se alguma Existência Finita pode impedir a manifestação da Essência Infinita.

Por mais estranho que pareça à primeira vista, esse algo impediente existe. Há um setor no Universo dos Finitos, no mundo das Facticidades, onde a vida e saúde da Essência Infinita, da Realidade, pode ser impedida, diminuída, onde a presença do Uno benéfico não mais se manifesta no Verso. E então aparece algo mau e maléfico nesse Verso, nos Finitos.

Este setor, como foi dito, é o chamado livre-arbítrio, ou simplesmente a liberdade. Uma creatura finita dotada de livre-arbítrio pode frustrar, não a presença do Criador Infinito, mas sim a sua criatividade e a sua atuação benéfica nos Finitos. A criatura livre é, por assim dizer, bivalente: positiva e negativa; pode cooperar com a Essência
Infinita, e pode também opor-se à atuação dessa Essência. O livre-arbítrio é o maior dos privilégios – mas é também o maior dos perigos.

Ora, acontece que, no plano da evolução histórica do Universo, surgiu uma creatura dotada de livre-arbítrio: o ser hominal. Mas esse ser hominal, o homem, apareceu com grau ínfimo de livre-arbítrio, com uma liberdade muito imperfeita. Depois de superar a zona meramente vital do mundo infra-hominal, esse ser entrou na zona do mental, onde a bivalência negativo-positiva se manifesta de preferência como
polo negativo. O ser hominal, ao aparecer no cenário da história, apareceu como negativamente livre, livre de alguma coisa, mas sem saber para que era livre. Livre da escravidão do instinto vital do mundo infra-hominal, graças ao poder mental, mas ainda não plenamente livre para um fim racional (espiritual).

Essa zona mental é do homem-ego, primeira etapa evolutiva do ser hominal e na qual o grosso da humanidade se acha até hoje: o homem-ego se sente livre de, mas não se sabe ainda livre para que e perante quem. É esta, a zona crítica da liberdade sem responsabilidade. Todos os males da humanidade podem ser sintetizados neste binômio: liberdade sem responsabilidade.

Neste plano, o homem age livremente em nome do seu ego separatista, e não age responsavelmente em nome do seu Eu unitivo; age egoicamente, não age cosmicamente. E, como todo o mal está na egoidade unilateral e como todo o bem está na cosmicidade onilateral, segue-se com a lógica férrea da lei inexorável de que o homem, no plano da egoidade sem cosmicidade, não pode deixar de ser vítima dos males produzidos por essa egoidade separatista, e nessa zona dos males perseverará o homem enquanto não despertar nele a consciência da sua cosmicidade unitiva, única capaz de o redimir dos males.

A união cósmica é a verdade, a separação egóica é uma ilusão. A ilusão produz os males, a verdade produz os bens e nos liberta dos males. Ilusão é treva, verdade é luz – as trevas só poderão ser dissipadas pela atuação da luz.

A verdade é o conhecimento consciente da Realidade, da Essência, do Uno do Universo. Conhecer esta Realidade é a verdade, e esta verdade conhecida é libertadora – “conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”.

Os males da vida humana são, portanto, produto do ego ilusório, e só poderão ser abolidos pelo despertamento do Eu verdadeiro. É perfeitamente inútil e totalmente impossível querer abolir os males ego-produzidos pelo próprio ego, por mais inteligente que ele seja. Nenhum ego pode libertar-nos dos males a que o ego nos escravizou. Escravocrata não abole escravidão; escravocrata faz escravos, mas não liberta escravo. Enquanto o homem escravizado pelo ego ilusório não ultrapassar a dimensão dessa egoidade ilusória e escravizante, não haverá redenção dos males que a egoidade engendrou. Querer libertar o ego pelo ego, é funesto círculo vicioso, em que a humanidade vive há milhares de anos. Pode o ego modificar os sintomas dos males por ele creados, mas não os pode erradicar e abolir definitivamente, enquanto não entrar na nova dimensão do Eu redentor.

Na natureza infra-hominal o Uno do Universo age diretamente, sem encontrar obstáculo, porque a natureza não possui suficiente liberdade para opor obstáculo
à atuação do poder cósmico. Com o aparecimento do fator consciente ou semiconsciente do ser hominal, em sua fase mental, surgiu a possibilidade duma obstrução; o homem-ego pode fechar os seus canais ao influxo da fonte cósmica.

Essa obstrução dos canais ocorre toda vez que o ego hominal considera a sua egoidade como fonte da própria Realidade, do Poder, da Vida e Saúde. Esta ilusão egóica é a razão por que o homem sofre os males. A ilusão separatista do ego obstrui os canais entre o homem e o cosmos. A libertação desses males é possível unicamente pela transição da ilusão para a verdade, porque só a consciência da verdade liberta o homem dos males que a inverdade creou nele.

A verdade, porém, é esta: Eu e o Infinito (Pai) somos um; o Infinito está em mim, e eu estou no Infinito; as obras que eu faço não sou eu (o ego finito) que as faz, mas é o Infinito em mim que as faz.

Quando o homem se convence definitivamente de que o seu ego humano não é Fonte, mas canal, que deve estar ligado conscientemente à Fonte, ao Infinito, ao Uno, ou Único, à Essência, então fluem para dentro dele, e através dele, as águas da Vida, da Saúde e Felicidade.

A presença objetiva da Vida, Saúde e Felicidade é um fato permanente e universal; mas a consciência desta presença é um problema. Enquanto o homem não tiver a consciência nítida desta presença cósmica, não será liberto dos seus males. O homem pode ter câncer, paralisia, tuberculose, lepra ou outra doença, dentro da presença e onipresença da Vida, Saúde e Felicidade do Cosmos; pode também ser o maior dos malfeitores dentro desta presença. O que o redime desses males e dessas maldades não é o fato objetivo da presença cósmica, é, sim, a consciência subjetiva dessa presença.

O homem-ego ignora essa presença, o homem-Eu sabe dessa presença cósmica, divina. Por isto, somente a verdade do Eu pode redimir o homem da ilusão do ego.

Auto-realização e cosmoterapia são manifestações da consciência da presença
de Deus no homem.

Nota de Guilherme Contrucci:

Pesquisando a vasta obra de Rohden, vale relembrar que ele considera como Deus: A palavra “Deus” (Theós, Zeus, Dyaush) vem de “divus”, que quer dizer “luminoso”. Também a eletrônica dos nossos dias chegou a conclusão de que a luz é a base de todas as coisas do Universo físico. Tudo é “lucigênito”, e por isto tudo é “lucificável”. Aliás, Moisés, há mais de três milênios antes de Einstein, já dissera que “no primeiro período (yom) Deus fez a luz”; e dessa luz primeva foram feitas todas as outras coisas. Deus, ou deuses, são manifestações individuais da Divindade Universal. São
Existências Finitas projetadas pela Essência Infinita.
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