Constituições Mentais (Gunas)

Sattva adere à felicidade, Rajas à ação, enquanto Tamas, verdadeiramente encobrindo o conhecimento, adere à negligência.”
BHAGAVAD-GITA (14:9).

Sattva – É a qualidade de paz, felicidade, harmonia, pureza e inteligência. É claro e luminoso; tem intuição, conhecimento e saúde.

Rajas – É ativo, agressivo, dominador, penetrante, móvel, inquieto, vermelho, raivoso, agudo; busca o poder, o trabalho e a ação.

Tamas – É obtuso, lento, morto, letárgico, estúpido, violento, pervertido, escuro, oculto; o veneno, a doença; a inércia, o sono.

“O desapego, o perdão e a generosidade são produtos de Sattva. O desejo, a ira, a avareza e o esforço são produtos de rajas. A letargia, a confusão e a sonolência são produtos de Tamas. Quando Sattva opera na mente, adquire-se mérito; quando Rajas opera, adquire-se demérito; quando Tamas opera, não se adquire nem mérito nem demérito, mas a vida é desperdiçada e transforma-se em nada”

Pancadasi

Os 4 Tipos de Julgamento

Por: Guilherme Armando Contrucci

Huberto Rohden (1893 – 1981) dizia que o julgamento é uma atitude daqueles que carregam consigo muitas frustrações existenciais, o mal da humanidade. Nas escrituras dos cristãos, quem julga o próximo, está condenando a si próprio; pois quem julga o outro acaba fazendo coisa pior.

É certo que, de algum modo, o julgamento está presente em nossas vidas, muitas vezes o fazemos sem perceber, achando que estamos apenas avaliando um fato ou alguém mas que, a rigor, é a mesma coisa.

Interessante notar parecer um padrão que o julgamento se dê por quatro razões claras e distintas. Essas razões não são um manual ou uma receita, são apenas impressões da vida real, e também visões de pessoas notáveis, como por exemplo o Dr. Lair Ribeiro.

Somos julgados, então, nessas quatro situações:

1 – O que fazemos,

2 – Como nos apresentamos,

3 – O que falamos, e

4 – Como falamos aquilo que falamos.

Sempre que estamos conhecendo alguém, seja no âmbito profissional ou pessoal, é fato que a primeira (ou segunda ) pergunta que nos fazem é justamente: “o que você faz?” Seja qual for a sua atividade, o julgamento está presente. Se a pessoa é, por exemplo, um coveiro ou um astronauta, um advogado ou um catador de lixos, o julgamento está presente. É claro que não menciono aqui as questões subjetivas, ou seja, um coveiro pode ser mais digno ou feliz do que o astronauta do exemplo. Mas o julgamento existe.

Como nos apresentamos é o segundo tipo de julgamento. Por exemplo, se a pessoa é um vendedor de uma loja de automóveis e está trajando um smoking, ele causará estranheza em todos – está bem vestido, elegante, mas inadequadamente com a sua atividade ou com o local. E assim se dão os julgamentos, quando o tema são as aparências.

Aquilo que falamos, a nossa comunicação verbal (falada ou escrita), é o terceiro tópico dos julgamentos. Nossas visões e valores são colocados à prova na medida em que nos expressamos, revelando como pensamos ou vemos a vida como um todo. A comunicação digital, essa tecnologia que deu um salto de qualidade e mudou o comportamento das pessoas e empresas, está revelando os valores e visões de mundo das pessoas. Antes, aquilo que se falava em bares ou roda de amigos, atualmente é conhecido por milhões de pessoas em todo planeta. Sempre cito o professor Conrado Adolpho (Google Marketing) que diz: “O que entra na internet nunca mais sai”. Portanto, cautela é bom antes de publicar qualquer pensamento.

E o quarto ponto, para mim o mais importante, é “como falamos aquilo que falamos (ou escrevemos)”. A responsabilidade pela boa comunicação é sempre do emissor, tenha isso em mente. Expressões como “você não está entendendo” pode ser substituída por “vou explicar melhor”, por exemplo. Trata-se, nesse caso, de uma comunicação assertiva e terapêutica. Podemos falar qualquer coisa de várias maneiras, sem contar o repertório do emissor, o meio e a forma. O objetivo deve ser alcançado (assertividade) seja para o bem ou para o mal.

Portanto, comecemos a dar mais atenção na forma como falamos aquilo que pretendemos comunicar. O mestre Aryeh diz: “O Sutil domina o Denso”.

Transtornos de Ansiedade, Estresse e Depressão: Como Identificar e Tratar?

Por: Guilherme Armando Contrucci

Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), os transtornos mentais atingem cerca de 700 milhões de pessoas no mundo, representando 13% do total de todas as doenças. Um relatório de 2017 da entidade apontava o Brasil como o país com a maior prevalência de transtornos de ansiedade nas Américas: o problema afetava 9,3% da população, o equivalente a 18,6 milhões de pessoas.

Pesquisa do instituto Ipsos, encomendada pelo Fórum Econômico Mundial (cedida à BBC News Brasil), aponta que 53% dos brasileiros declararam que seu bem-estar mental piorou um pouco ou muito no último ano. Essa porcentagem só é maior em quatro países: Itália (54%), Hungria (56%), Chile (56%) e Turquia (61%).

“A gente já havia percebido isso em outra pesquisa global que fizemos em março do ano passado, quando 41% dos brasileiros relatavam ter sintomas como ansiedade, insônia ou depressão já por consequência da pandemia”, diz à BBC News Brasil Helena Junqueira, gerente de pesquisas digitais do Ipsos.

Em meio à devastação causada pela covid-19 no país e a necessidade de isolamento social, “a percepção é de que a saúde mental das pessoas está piorando, e além disso o tema se tornou mais discutido recentemente. É um assunto mais presente”, prossegue Junqueira.

O que são os TADs?

Mas é importante também entender o que são os transtornos de ansiedade e depressão, conhecidos na literatura médica como TADs, independente dos números acima apresentados. Os diagnósticos, os medicamentos ofertados cada vez mais através da poderosa indústria farmacêutica, as psicoterapias e outros tratamentos também devem ser observados.

Falo muito para meus pacientes que “você não vai morrer disso!”. Essa frase, causa um conforto, às vezes um espanto, alguns dão risada, mas trata-se de uma informação que a patologia tem cura na maioria dos casos. Mesmo porque, quem somos nós, humanos, que podemos determinar se alguém vai morrer ou não, ou quando isso vai acontecer?

Segundo o Dr. Breno Serson, “É antiga a discussão sobre o que é melhor – se a farmacoterapia ou psicoterapia”. Sabemos que os efeitos dos remédios são mais rápidos, mas também sabemos que os remédios não curam – como o próprio nome diz, remediam.

As depressões constituem os TADs mais significativos, as pessoas passam por processos depressivos pelo menos uma vez na vida. Instala-se o que chamamos de “humor depressivo”, ou seja, falta de vontade, energia, prazer, etc. Também se manifestam ideias negativas, sono perturbado, falta de apetite, dentre outros sintomas. Mas a depressão não pode ser entendida como ansiedade, são patologias distintas e bem definidas, cujos tratamentos são diferentes. Entretanto, pode-se encontrar estados de ansiedade (ansiedade geralmente grave) nos casos de depressão e vice-versa – mas, como escrevi, são coisas diferentes.

Reforça o Dr. Serson que ” Os sintomas isolados não são a doenças, valoriza-se um conjunto isolado de sintomas e sinais que se encaixam dentro de um quadro conhecido, configurando uma síndrome”. Diz ainda que “Já que uma mesma síndrome pode ser causada por várias doenças, deve-se excluir as causas corporais e de uso de substâncias para se chegar ao diagnóstico de TAD.”

Nas depressões, portanto, podem aparecer crises de ansiedade, somatização, sintomas do tipo TOC (transtorno obsessivo-compulsivo), culpa, falta de sentido na vida, pensamentos sabotadores repetitivos, falta de estímulo para o trabalho, falta de interesse sexual, além das dores físicas generalizadas.

Todos nós somos potenciais para desenvolver os TADs

Todos nós podemos ter graus de abatimento diante da realidade da vida, falo para meus pacientes que “a vida não é um parque de diversões, podemos até tentar transformá-la, mas ela é desafiadora e cheias de perigos”. A questão é a duração, intensidade e como nos comportamos diante dos abalos e turbulências. Dependendo desses fatores, podemos diagnosticar alguém com TADs moderado ou grave, mas também a ausência de TADs.

Veja o gráfico abaixo:

Os fatores biológicos / genéticos e os fatores ambientais / pontuais (eventos específicos) são determinantes para o diagnóstico de TADs. Pessoas com fatores biológicos podem desenvolver as patologias simplesmente se contaminadas por fatores ambientais. Mas também aqueles que não trazem consigo os fatores biológicos, podem desenvolver TADs com eventos pontuais, como a perda de um ente querido, por exemplo.

É muito importante que o terapeuta identifique se o diagnóstico é uma patologia dentro do grupo dos TADs, e, se não for o caso, deve-se mostrar que o paciente tem que vivenciar as suas perdas, sem torná-las problemas médicos.

A ética médica deve acolher os pacientes de forma humana e sincera. O terapeuta, antes de qualquer proposta de ajuda, deve criar um ambiente e uma relação empática com o paciente, na qual ambos sintam-se aptos a cocriar as soluções. O simples fato de ouvir, entender e validar as queixas já tem efeito terapêutico, pois o paciente também “se ouve” e assim começa a reconhecer as suas feridas, medos e limitações.

É um processo que chamo de ganha-ganha!

Considerar-se os aspetos físicos e mentais, e também os aspectos metafísicos é um bom início para a jornada de cura!

Saúde e Paz!

O Prana e a Mente

por: Guilherme Armando Contrucci

O prana identifica-se e está intimamente ligado com a própria vida. Sem ele nada existe nada se mexe nada vive e nada respira. Pode-se dizer que o viver é prana e que a vida é prana.

Conhecer os mistérios do prana é conhecer os mistérios da vida. A palavra sânscrita prana significa energia primordial: prana  é “antes” e ana é “sopro’ ou a energia da respiração, vida.

As duas grandes forças cósmicas que são a causa da manifestação na antiga doutrina da criação, a saber Purusha e Prakriti são, na verdade, as energias não-manifesta e energia manifesta, ou seja, o prana.

Segundo Atreya, um dos principais segredos do prana é o cultivo de uma forte comunhão com essa energia. Quando você é amigo de alguém, ajuda o seu amigo. Essa é a definição de amizade. O prano será seu amigo se você deixar que ele o seja, adotando a atitude correta. Essa atitude correta é tradicionamente chamada de devoção.

Os sábios indianos sabiam que todas as funções do corpo eram desenvolvidas por 5 tipos de energia vital (prána-váyus), todos estes são conhecidos genericamente como prána, mas a acepção do termo aqui refere-se ao particular: prána, apána, samána, udána, e vyána. Estes são aspectos específicos de uma só força cósmica vital.

No pránáyáma, o prána-vayu é ativado pela inspiração, e o apána-vayu pela expiração. O udána-vayu eleva a energia a partir da base da coluna até ao cérebro. O vyána-vayu funciona essencialmente como o meio pelo qual o prána e o apána transferem energia de um para o outro, escreve Ricardo Viegas.

O Prána move-se na região toráxica e controla a respiração, absorve a energia atmosférica vital. É o “ar que se move para frente ou para dentro”.

Apána move-se no baixo ventre e controla a excreção de urina, sémen e fezes. “É o ar que desce”.

Samána atiça o fogo interno, favorecendo a digestão, e mantendo harmoniosamente as funções dos órgãos abdominais. Integra a totalidade do corpo denso humano. “É o ar que compensa ou equilibra”.

Udána trabalha através da garganta, na laringe e faringe, controla as cordas vocais, a absorção de ar e de comida. “É o ar que sobe”.

Vyána pervade todo o corpo, distribuindo a energia derivada da comida e da respiração através das artérias, veias e nervos. “É o ar impregnante ou exteriorizante”.

Por essa razão, que vem do conhecimento milenar indiano, se faz necessário cautela e sabedoria no trato com o corpo físico de outrem, no tocantes as terapias manuais. quando o terapeuta conhece e compreende a ciência do “prana”, ele pode traduzir em benefício do tratamento terapêutico de seus pacientes. Suas mãos e corpo passam a se tornar veículos condutores do “prana”; terapeuta e paciente cocriam as soluções e a cura das patologias físicas e emocionais.

A Metafísica do Aprendizado

por Guilherme Armando Contrucci

Os modelos de aprendizagem convencionais, os quais se baseiam em processos de ensino – aprendizagem, levam em consideração as capacidades cognitivas, a disciplina, o esforço e também o entusiasmo do aprendiz. Técnicas e ciências como a PNL e o Coaching mostram também que é possível trabalhar-se as mentes para que os resultados desejados sejam alcançados.

Gosto muito de um outro caminho, integrativo, complementar (não é alternativo) que utiliza a sutileza dos campos não-físicos ou convencionais, mas sim os campos denominados metafísicos.

Nesse sentido, um modelo para se adquirir sabedoria pode ser descrito da seguinte maneira:

  • Por Reflexão,
  • Por Imitação e
  • Por Provação.

O caminho mais fácil e suave é o modelo por “provação”. Nesse modelo, a pessoa faz tentativas cometendo erros e acertos, ou seja, uma espécie de laboratório de aprendizagem. Entretanto, as experiências dolorosas podem ser traumatizantes em muitos casos, mesmo sabendo que fazem parte da nossa jornada de vida.

O caminho intermediário é o modelo por “imitação”, no qual usamos as nossas percepções sensoriais para observarmos os exemplos de sucesso, que podem ou não ser imitados / copiados e que refletem em bons resultados via de regra. Casos de frustrações acontecem quando se considera árdua e dispendiosa a tarefa de imitar, chamada de modelagem.

O caminho mais difícil, porém, mais nobre e engrandecedor é o modelo por “reflexão”. Esse modelo leva em consideração a busca pelo auto conhecimento e pelo renascimento, exige que novos padrões de comportamento e pensamentos sejam instalados na mente e no coração do indivíduo e, sobretudo, proporciona felicidade e auto reconhecimento.

A escolha do modelo é exclusivamente uma decisão individual.

Em que Consiste a Felicidade Humana?

por Huberto Hohden

da obra: O Caminho da Felicidade

O problema da felicidade é o problema central e máximo da humanidade.

Desde tempos antiquíssimos existem duas ideologias filosófico-espirituais sobre o segredo da felicidade humana – “essa felicidade que supomos… toda arreada de dourados pomos”, como diz Vicente de Carvalho, mas que “está sempre apenas onde a pomos, e nunca a pomos onde nós estamos”.

Existe essa felicidade, “árvore milagrosa, que sonhamos”? Em que consiste? Como alcançá-la? Como conservá-la?

A felicidade existe, sim, não fora de nós, onde em geral a procuramos, mas dentro de nós, onde raras vezes a encontramos.

Em que consiste a felicidade?

A célebre escola filosófica de Epicuro (hedonismo) faz consistir a felicidade na posse e plenitude de bens externos; tanto mais feliz é o homem, segundo os epicureus, quanto mais possui, tem, goza.

A escola de Diógenes (cinismo) ensina que a felicidade consiste na vacuidade ou renúncia de todos os bens externos; quanto menos o homem possui ou deseja possuir, tanto mais feliz é ele, porquanto a infelicidade consiste a) ou no medo de perder o que se possui, b) ou no desejo de possuir o que não se pode possuir; quem renuncia espontaneamente à posse de bens externos e ao próprio desejo de os possuir, ensinam os discípulos de Diógenes, é perfeitamente feliz.

Entretanto, embora haja elementos de verdade nessas filosofias, tanto Epicuro como Diógenes, e todos os seus seguidores, falharam no ponto central da questão. A felicidade não consiste nem em possuir nem em não possuir bens externos, mas sim na atitude interna que o homem crea (*) e mantém em face da posse ou da falta desses bens. O que decide não é, em primeiro lugar, aquilo que o homem possui ou não possui, mas sim o modo como ele sabe possuir ou não possuir.

Quer dizer, o que é decisivo não é a maior ou menor quantidade objetiva das coisas possuídas, mas a qualidade subjetiva do possuidor. Esta qualidade, porém, é conquista do próprio homem, e não algum presente de circunstâncias fortuitas. A felicidade do homem só pode depender de algo que dependa dele.

É possível que a posse, ou mesmo o desejo da posse, de uns poucos cruzeiros escravize o homem – e é possível que a posse real de milhões e bilhões de cruzeiros não escravize o seu possuidor.

A questão central não é de ser possuidor ou não-possuidor – mas, sim, de ser possuído ou não- possuído de bens externos. Não há mal em possuir – todo mal está em ser possuído. Ser livre é ser feliz – ser escravo é ser infeliz.

A verdadeira felicidade, portanto, não pode consistir em algo que nos aconteça, mas em algo que seja creado (*) por nós. As quantidades externas nos “acontecem” – a qualidade interna é creada(*) por nós. Tudo depende, pois, em última análise, da nossa atitude interna, do modo como possuímos ou não possuímos; ou, no dizer do Nazareno, depende da “pobreza pelo espírito” e da “pureza de coração”, quer dizer, na liberdade e no desapego interior do homem.

Pode o possuidor ser livre daquilo que possui – e pode o não-possuidor ser escravo daquilo que não possui.

Mestre Zenon, fundador da escola estóica, já naquele tempo, vislumbrou essa grande verdade e ensinava a seus discípulos que a felicidade consistia numa permanente serenidade interior, tanto em face do prazer como em face do desprazer, serenidade baseada na perfeita harmonia com a “lei cósmica”; que o homem perfeito e feliz devia manter uma atitude de absoluta serenidade, espécie de equilíbrio e atitude racional, em face do agradável e do desagradável da vida.

O estoicismo é, certamente, na antiguidade, o tipo de filosofia da vida que mais se aproximou da solução do problema central da humanidade: compreendeu que a felicidade não consiste, primariamente, em ter ou não-ter, mas sim em ser; não em plenitudes ou vacuidades externas, mas numa vitalidade interna; não em circunstâncias objetivas, mas substância subjetiva.

O estoicismo antigo, eminentemente racional, falhou apenas num ponto: em querer banir da vida humana os elementos afetivos e emotivos, que ele considera incompatíveis com a serena racionalidade, indispensável a uma vida perenemente feliz. Entretanto, o fato é que a zona afetiva faz parte do homem completo; excluí-la da vida humana é edificar a felicidade sobre um bloco de gelo.

Uma perfeita e verdadeira filosofia da felicidade humana deve, necessariamente, ter caráter positivo e construtor, porque aqueles elementos fazem parte integrante da natureza humana, e sem essa integridade não pode haver felicidade real e permanente. Neste ponto, o Evangelho do Cristo representa a solução definitiva.

Também a Bhagavad Gita e o Tao Te King, essas pérolas da sabedoria oriental, fazem consistir a felicidade do homem na total permeação da sua natureza pela consciência espiritual, realizando assim o homem cósmico, o homem univérsico, o homem feliz.

Chegamos, assim, à conclusão final de que a felicidade 1) não consiste, precipuamente, em possuir ou não possuir determinadas quantidades de bens externos, embora seja necessária a posse de certo conforto material para podermos prosseguir em nossa evolução superior; 2) que a felicidade não pode ser baseada apenas em uma parte da natureza humana, mas tem de ser construída sobre a natureza humana total; 3) que deve vigorar perfeita ordem e harmonia entre todas as partes componentes da natureza humana; não podemos afirmar um elemento humano em detrimento de outro; não deve haver eliminação nem substituição, mas perfeita integração.

(*) substituição da tradicional palavra latina crear pelo neologismo moderno criar é aceitável em nível de cultura primária, porque favorece a alfabetização e dispensa esforço mental – mas não é aceitável em nível de cultura superior, porque deturpa o pensamento. Crear é a manifestação da Essência em forma de existência – criar é a transição de uma existência para outra existência. O Poder Infinito é o creador do Universo – um fazendeiro é criador de gado. Há entre os homens gênios creadores, embora não sejam talvez criadores. A conhecida lei de Lavoisier diz que “na natureza nada se crea e nada se aniquila, tudo se transforma”, se grafarmos “nada se crea”, esta lei está certa mas se escrevermos “nada se cria”, ela resulta totalmente falsa. Por isto, preferimos a verdade e clareza do pensamento a quaisquer convenções acadêmicas.

O sofrimento como fator de iniciação

por: Huberto Rohden

É experiência geral que entre o entender intelectual do homem profano e o compreender espiritual do iniciado medeia um grande sofrimento. E esse sofrimento serve como que de catalisador, nessa estranha alquimia.

Se o compreender espiritual fosse apenas a soma total dos atos sucessivos do entender intelectual, não haveria necessidade desse sangrento catalisador; mas não é isto que acontece. Ninguém chega a Deus só pela força do pensamento. O pensamento é, até certo ponto, necessário para que a compreensão espiritual possa desabrochar na alma; mas, em hipótese alguma, deve o pensamento ser considerado como causa dessa compreensão; é apenas condição preliminar, embora necessária, da mesma.

E vai nisto um elemento profundamente trágico: precisamente no momento em que o homem tem sobre Deus os mais grandiosos e belos pensamentos é que ele deve superar todo esse deslumbrante mundo da filosofia e poesia, e até o fascinante mundo da ética e filantropia, que não o podem conduzir até ao trono de Deus. Todos esses mundos, por mais verdadeiro e bons, só conduzem o homem até ao limiar do santuário; nenhum deles consegue transpor a misteriosa fronteira que há entre o entender e sentir, por um lado, e o compreender e amar, por outro. É indispensável que, depois de todo esse gratíssimo entender, querer e sentir, do plano horizontal, haja uma crucifixão, que uma súbita e inesperada vertical cruze e corte cruelmente aquela horizontal. Sem esse cruzamento, ou crucifixão, não há redenção. “Sem efusão
de sangue não há redenção.” Sem essa sangrenta sexta-feira, nas alturas do Gólgota, não há domingo de ressurreição no horto das oliveiras.

O reino de Deus e sua glória nascem entre os braços sangrentos da cruz. E isto é, para o nosso velho ego, o golpe de misericórdia. Não podemos dizer que fomos nós, pessoalmente, que arquitetamos dentro de nós o reino de Deus, mas que esse reino nos veio como uma graça, um dom gratuito dos céus, imerecidamente – isto é tão humilhante e tão mortífero para o nosso complacente e autossuficiente ego que toda a sua profana bagagem fica abandonada para aquém da fronteira da verdadeira iniciação espiritual.

É necessário que o homem satisfeito consigo mesmo caia num abismo de insatisfação – ia quase dizendo, de desespero de si mesmo. É esta a mais trágica das “tragicidades” da nossa vida terrestre: temos de trabalhar e lutar, temos de pensar e realizar, temos de estudar e crer – e, depois de tudo isto, devemos saber que nada disto nos pode salvar. E, por fim, de quilha quebrada, de leme partido e mastros desarvorados, temos de enfrentar o grande naufrágio da nossa vida. Temos de submergir no oceano de um completo aniquilamento do nosso velho ego e de tudo quanto ele produziu, possui e estima – e humildemente temos que esperar que as ondas bravias da misericórdia de Deus nos lancem a alguma ilha longínqua e ignota, desnudos de tudo que julgávamos possuir, a fim de podermos ressuscitar e começar vida nova e verdadeira.

Sem esse total naufrágio do homem velho não há redenção para o homem novo. “Não há heróis no campo de ação – escreve Albert Schweitzer – há tão somente heróis no plano da renúncia e do sofrimento.”

Não é possível que a “nova creatura em Cristo” nasça sem que o “homem velho” morra. Não é possível que o grão de trigo produza muito fruto sem que ele primeiro caia em terra e morra – morra para a semente, a fim de viver para a planta. Aqui é que se dividem os caminhos da humanidade. Aqui é que está a grande encruzilhada entre Lúcifer e Lógos, entre Satan e Cristo, entre os que pretendem fabricar por iniciativa própria o reino dos céus e os que, em humilde silêncio, o recebem nas mãos de Deus. As torres de Babel não atingem o céu.

O homem luciférico move céus e terra para evitar essa crucifixão, essa morte do velho ego; quer, sim, entrar no reino dos céus; mas, de forma alguma, pela porta estreita do sofrimento. Tudo – menos o sofrimento! Muitos dos homens profanos que se têm em conta de iniciados e esotéricos – que são os mais profanos dos profanos – professam esse horror ao sofrimento; e por isto inventam os mais engenhosos sistemas e elaboram mirabolantes técnicas de iniciação indolor, espécie de anestesia ou hipnose, para terem um parto espiritual sem dor. Aquele velho Cristianismo do Sermão da Montanha não é do sabor do espiritualista moderno; ele está convencido de que há outra entrada no reino dos céus que não obrigue o homem a passar pelo Getsêmane e pelo Gólgota. Pois, não fez a humanidade tão estupendas invenções e grandes progressos, nesses dois milênios? Não andamos mais em primitivas canoas e carros de boi – mas voamos em aviões a jato; não nos comunicamos mais por meio de vagarosas diligências e estafetas postais – mas estabelecemos permanente e rapidíssimo intercâmbio por meio de telégrafo e telefone, rádio e televisão. E por que continuaríamos a rastejar dolorosamente nos caminhos obsoletos do Sermão da Montanha? Repetiria Jesus essas coisas se vivesse em pleno século vinte, à luz da Era Atômica?

Entretanto, a natureza humana continua a ser a mesma como nos tempos do Nazareno, e enquanto o homem for egoísta, e cada vez mais egoísta, não há nenhuma possibilidade de redenção que não passe pelas trevas do sofrimento. Não há ressurreição para o “homem novo” enquanto o “homem velho” não for crucificado, morto e sepultado…

Outros, em vez de práticas iniciáticas e liturgias esotéricas, se lançam ao mar imenso das atividades ético-sociais e filantrópicas, fundando sociedades, igrejas, asilos, colégios, criando estupendas organizações para aliviar os sofrimentos da humanidade, e com essas exuberâncias externas se julgam remidos internamente. Podem essas atividades, quando bem intencionadas, preparar a redenção do homem, não o negamos; mas, em hipótese alguma, a podem substituir nem produzir. Pode um homem fazer um bem imenso a seus semelhantes sem ser bom ele mesmo.

Nem a liturgia iniciática nem as atividades filantrópicas podem causar redenção nem podem dispensar o fator intimamente ligado à redenção, que é o sofrimento voluntariamente aceito. Tudo aquilo que o homem faz, como personalidade-ego, é incapaz de produzir a redenção, porque a redenção não pertence ao número dos objetos que o homem faz ou tem, mas é aquilo que o homem é; é a completa transformação e transfiguração do seu íntimo sujeito. A redenção é algo que o homem recebe, depois de se ter tornado receptivo. O sofrimento voluntário, porém, é o último retoque nesse processo de receptividade. É o abrir de uma porta fechada. É a desobstrução de um canal obstruído.

Por quê? Porque o sofrimento cria um ambiente de desconfiança no ego. Até essa data, o ego afirmava orgulhosamente que ele podia tornar o homem definitivamente feliz. O sofrimento destruiu essa falsa segurança, revelou a fraqueza e insegurança do ego. E o homem ergue as mãos às alturas, estende as suas antenas, em busca de algo mais seguro. É o anseio do elemento divino, do reino de Deus que está dentro do homem em estado latente. É o primeiro brado da alma para despertar dentro de si o “Deus escondido”. É o romper da casca do “grão de trigo” e o início da planta que do seu interior vai brotar.

Essas atividades horizontais do ego “personal” têm por finalidade principal criar no homem um ambiente inflado de confiança e orgulho mental em si mesmo. E, quando esse orgulho mental tiver atingido o seu clímax de glórias e grandezas, sobrevém ao homem o grande naufrágio, o terremoto catastrófico de um total desespero de si mesmo, causado pelo sofrimento arrasador. E quando esse naufrágio e esse terremoto tiverem abalado os últimos alicerces do ego “personal”, não deixando pedra sobre pedra – então se sente o homem suficientemente aniquilado e esvaziado do seu pequeno eu para poder ser enchido do grande Deus.

A teo-plenificação supõe necessariamente uma ego-evacuação.

Esse total ego-esvaziamento, porém, não se realiza senão por meio de um grande sofrimento. O momento trágico está no fato de que todas as atividades do ego “personal” são necessárias – mas nenhuma delas, nem a soma total das mesmas, é
suficiente para a redenção do homem. Se não fossem necessárias, o homem se deixaria redimir, passivamente, pela graça de Deus. Se fossem suficientes essas atividades do ego, o homem se redimiria, ativamente, por seu esforço próprio, pessoal. O trágico está nesse estranho paradoxo: necessário – e não suficiente.

Por isto, impedir esse sofrimento ou “descompreendê-lo”, é o pior serviço que o homem pode prestar a si mesmo, no caminho da sua evolução ascensional. Se a redenção fosse apenas um processo de continuação de algo já existente e conhecido no homem, bastava que ele intensificasse esse processo – a verdade, porém, é que a redenção é um novo início, algo inédito, virgem, original, um fiat creador de novos mundos – e o velho ego “personal” do homem é muito pequeno para produzir coisa tão grande.

O sofrimento é o ocaso de pequenez e a alvorada da grandeza.

Querem os escolásticos saber se o Cristo poderia ter remido o mundo sem o sofrimento, e não chegam a um acordo – a nós não nos interessa saber tal coisa: sabemos que, historicamente, a redenção foi feita através do sofrimento e que o Cristo “devia sofrer tudo isto para assim entrar em sua glória.” A inteligência analítica nunca explicará o último por que desse fato, mas a razão intuitiva adivinha uma grande verdade nesse acontecimento. Todo homem que passou vitoriosamente por um grande sofrimento compreende e aprova integralmente a epopéia do sofrimento de Jesus, porque sabe por experiência íntima que há no sofrimento algo de purificante e libertador, algo de espiritual e divino.

O sofrimento é o pior inimigo do ego, que vê nele uma diminuição da vida, por que nada enxerga para além das fronteiras da personalidade físico-mental-emocional; e, dentro deste âmbito, o ego tem razão; o mal está nessa mesma miopia inseparável do ego. O Eu espiritual em nós tem visão ampla, alcança grandes distâncias, abrange o todo da nossa existência, no tempo e no espaço, e também para além do tempo e do espaço; e por isto pode incorporar o sofrimento como um fator positivo e benéfico dentro do quadro geral da existência humana. E, com isto, adquire o sofrimento a necessária transparência e plasticidade para se integrar no plano total do homem.

O ego humano é o Jesus em nós, mortal, que tem de ser crucificado – para que o Cristo imortal, o Eu divino, possa viver mais abundantemente e entrar em sua glória.

Por isto, qualquer doutrina ou atividade que poupe ao homem essa crucificação é um fator anticristão que não redime o homem. Há inúmeras doutrinas espiritualistas, místicas e esotéricas que, sob a bandeira do Cristo, impedem o homem de chegar ao Cristo, porque não querem saber do trecho que vai do Getsêmane ao Gólgota.

Quando dizemos “sofrimento” ou “crucifixão” não entendemos com esta palavra alguma mortificação arbitrária, como a que certos penitentes, antigos e modernos, infligem a seu corpo; nem entendemos o simples fato material de alguém suportar o inevitável; mas entendemos a mais árdua de todas as crucifixões, que consiste na completa e irrevogável identificação do homem com os dois grandes mandamentos da vida humana, o mandamento vertical da mística divina e o mandamento horizontal da ética humana. Essas duas linhas, do ser do agir, quando se encontram em ângulo reto, formam uma cruz, e no simbolizado desse símbolo é que está a redenção.

Amar a Deus de todo o coração, com toda a alma, com toda a mente e com todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo – é esta a única crucifixão redentora, e é, no princípio, o maior dos sofrimentos, embora se converta, mais tarde, numa entrada na glória. A cruz do Calvário, ainda com o pé preso na terra, se transformará na cruz do Tabor, com as quatro pontas iguais e livremente suspensas no espaço – a cruz da glória e da vida eterna, conhecida em todas as grandes religiões e filosofias do mundo.

Para fazermos o teste e a prova de fogo do amor a Deus, basta que verifiquemos se, de fato, amamos nosso semelhante como a nós mesmos. Enquanto não possuirmos este amor humano, não nos iludamos sobre a posse do amor divino. A ética é a única prova da mística.

Quem, de fato, identificou a sua vida individual com a Vida Universal, não pode deixar de sintonizar a sua vida pessoal com a de todas as outras creaturas de Deus.

Quem ama a Deus tem de, forçosamente, amar aquilo que Deus ama – e não existe creatura alguma no Universo que não seja alvo do amor de Deus.

Quem descobriu o Deus do mundo em si mesmo descobre-o também em todos os outros seres do Universo. É simples questão de vidência cósmica. A sintonia com a vida do Creador produz necessariamente a sintonia com a vida de todas as creaturas de Deus.

Nota de Guilherme Contrucci

Precursor do espiritualismo universalista, escreveu mais de 100 obras (ao final da vida, condensadas em 65 livros), onde franqueou leitura ecumênica de temáticas espirituais e abordagem espiritualista de questões pertinentes a pedagogiaciência e filosofia, enfatizando o autoconhecimento, a autoeducação e a autorrealização. Propositor da filosofia univérsica, por meio da qual defendia a harmonia cósmica e a cosmocracia: autogoverno pelas leis éticas universais, conexão do ser humano com a consciência coletiva do universo e florescimento da essência divina do indivíduo, reconhecendo que deve assumir as consequências dos atos e buscar a reforma íntima, sem atribuir à autoridade eclesiástica o poder de eliminar os débitos morais do fiel. Brasileiro de Tubarão (SC), Rohden foi confundido com um ateu visto suas colocações críticas ao cristianismo ocidental, em que exalta a diferença entre Jesus e o Cristo.

Hunab Ku e Kuxan Suum

Por Dr. José Arguelles

O que distingue a ciência maia da ciência atual é que trata-se de um sistema operando dentro de um quadro galáctico. Uma ciência operando dentro de um quadro de referência genuinamente galáctico não pode ser separada do que chamamos de mito, arte ou religião. Pois, como uma visão abrangente do mundo, o quadro galáctico maia de referência sintetiza em vez de separados. A este respeito, não só os Maias desafiam nossa ciência, mas eles brincam com nossos mitos, e, como veremos, eles reinvestem nossa história com um significado e um escopo que coloca nosso destino dentro dos propósitos invisíveis do firmamento estrelado – mas de uma forma inimaginável pelos construtores de brinquedos de nossos modernos programas espaciais.

Dois termos maias, Hunab Ku e Kuxan Suum, são essenciais para nos fornecer uma visão galáctica que sintetiza a ciência e o mito.

Hunab Ku é geralmente traduzido como “Um Doador de Movimento e Medida”; é o princípio da vida além do Sol. A este respeito, Hunab Ku é o nome do núcleo galáctico, não apenas como nome, mas como uma descrição de propósito e atividade também. O movimento corresponde à energia, ao princípio da vida e à consciência que permeia imanente em todos os fenômenos. A medida refere-se ao princípio do ritmo, da periodicidade e da forma de contabilizar as diferentes qualidades limitantes que a energia assume através de suas diferentes transformações.

Kuxan Suum, literalmente “a Estrada para o Céu Levando ao Cordão Umbilical do Universo”, define os fios ou fibras invisíveis da vida galáctica que ligavam tanto o indivíduo quanto o planeta, através do Sol, ao núcleo galáctico, Hunab Ku. Estes fios ou fibras são os mesmos que os fios luminosos que se estendem do plexo solar descrito pelo vidente, Don Juan, nos serues de Carlos Castaneda se a sabedoria de Yaqui livros.

O Fator Maia, Caminho Além da Tecnologia, José Arguelles, Ph.D.